NEOARQUEO
09 maio 2007
  Abrunhosa do Mato: 2 monumentos na Base de Dados Nacional do IPA
Em Abrunhosa do Mato, na zona do Carregal ou Portinho, fica uma calçada, que preenche alguns metros do antigo caminho que ligava esta localidade a Cunha Baixa, à qual me é difícil atribuir uma cronologia e à qual já aludi noutro artigo.
Logo ao lado, no muro que separa este caminho de uma propriedade agrícola, estão dois monumentos, em granito, que eu considero serem duas cabeceiras de sepultura, medievais. É natural que estejam fora do sítio original, mas certamente este ficará perto.
As duas estelas estão dispostas lado a lado, incorporadas no muro que referi. São antropomórficas, apresentando o “corpo” em forma rectangular e a “cabeça” é em forma discóide. No disco da cada uma pode observar-se uma cruz insculpida. São semelhantes, não fora a diferença de tamanhos; assim pode depreender-se que a maior se destinou a perpetuar a memória de um adulto enquanto que a menor cumpriu esse papel para uma criança ou jovem.
Metrologia:

Estela 1 Estela 2

Altura total: 70 cm 40 cm
Altura do corpo: 38 cm 18 cm
Altura disco: 32 cm 23 cm
Largura corpo: 41 cm 24 cm
Largura disco: 33 cm 24 cm
Largura pescoço: 20 cm 17 cm
Espessura: 18 cm 16 cm
Cruz A x L 19x17 14x13

Estas estelas situam-se no período medieval. Nesta época histórica, as estelas, ou cabeceiras de sepultura, apresentavam morfologicamente diversos tipos, sendo mais frequentes as discóides (é o caso). Generalizadamente defende-se que este tipo de monumentos são fundamentalmente do séc XV e XVI, podendo ir até ao séc XVIII mas, podem encontrar-se exemplares que remontam ao séc IX.
Encontravam-se nos cemitérios rurais dos adros das Igrejas, colocadas à cabeceira das sepulturas e por vezes também aos pés da mesma. Muitas delas têm no disco a inscultura da cruz, (é o caso), representada de várias formas, e também aparecem insculpidos objectos (tesouras, martelos, etc.) que indicam a profissão do falecido. São constituídas pelo disco e pelo espigão.
É um mundo interessante de estudo. A cerca de 500 metros fica a estação arqueológica romana, que já publiquei:
Oliveirinha.
Em Abrunhosa do Mato conta-se, a propósito destas estelas, uma lenda interessante: trata-se de uma mãe e uma filha. A filha foi ao moleiro, para moer a farinha e terá sido atacada pelos lobos que a terão morto. A mãe, pela demora da sua filha, ter-se-á posto a caminho e teve igual sorte.
Fez no dia 26 de Abril de 2007 um ano que enviei à Extensão de Viseu do IPA, Instituto Português de Arqueologia, entidade estatal responsável pelos sítios e monumentos arqueológicos, o processo de Localização e Classificação destes dois monumentos de Abrunhosa do Mato. É com júbilo que verifiquei que o IPA já procedeu à sua inclusão na Base de Dados Nacional Endovélico. Tem o número CNS 24715.
Assim, Abrunhosa do Mato está culturalmente mais rica. O concelho de Mangualde está culturalmente mais rico.

 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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