NEOARQUEO
29 outubro 2005
  GANDUFE - Origem do nome

Em Gandufe, aldeia da Freguesia de Espinho, existe uma construção de carácter militar. Bastante arruinada esta era constituída por uma torre, alta, que ainda hoje parte dela lá está. Internamente a muralha mede 6,60m e excede os 9 metros de altura.
Trata-se de uma torre medieval, dado que a forma como os silhares estão travados, típica das construções guerreiras da Idade Média, assim o permitem concluir. Foi, sem dúvida, além de fortificação, a habitação de um Senhor poderoso na região. Não se pode falar, em rigor, de um Senhor feudal, dado que o feudalismo não chegou a acontecer com a mesma intensidade e com as mesmas características do do resto da Europa Cristã.
Qual a História desta torre?
Não sabemos…As fontes são escassas: os relatos escritos não lhe fazem referência. Espólio arqueológico nunca foi encontrado.
Reza a lenda popular que ali vivia um Senhor, de nome “Gondufão”. Seria, consequentemente, Gondufão o proprietário e senhor daquelas terras e região.
Se atentarmos à filologia, segundo Leite de Vasconcelos, Gandufe é um genitivo medieval Gondufi ou Gundufi do nome Gondufo e este provém de Gondulfus, nome próprio de origem germânica formado de Gunthis – Batalha e Wulfs – Lobo, significando, assim, Lobo de Batalha.
Pode pensar-se, então, estarmos na presença da habitação de um Senhor de origem goda, logo Cristão, que do alto da sua torre dominava uma vasta região, nos anos longínquos da Idade Média. Naturalmente, as terras à volta da torre eram as terras de “Gondufe”, num ápice o nome do dono passou também a designar as terras daquela região. São vários os exemplos semelhantes ao longo do país.
Valentim da Silva propõe uma análise interessante a propósito da ocupação medieval das terras que hoje são do Concelho de Mangualde: dum lado as terras de Azurara, sob o domínio de Azurão, um senhor árabe (mouro) do outro as terras de Gondulfus, um senhor godo, cristão. A coexistência entre muçulmanos e cristãos nem sempre era pacífica , pelo que, nestas paragens várias batalhas deverão ter acontecido…
A destruição desta torre será resultado de alguma dessas batalhas?
 
24 outubro 2005
  Alminhas - A Saga da Preservação

As alminhas são pequenos monumentos de cariz religioso. São também uma das mais originais expressões da arte popular portuguesa. As Alminhas são constituídas, invariavelmente, pelo retábulo e pelo oratório. È no retábulo onde figura a representação do Purgatório. Essa representação é feita através de pintura ou de painel de azulejos. Daí deriva o nome com que o povo as baptizou.
Situadas à beira dos caminhos, nas encruzilhadas, abundam no Norte e Centro, podendo encontrar-se também no Sul do País. Em termos artísticos as pinturas e/ou os azulejos são extremamente simples e até naif. O Purgatório é representado por uma grande fogueira expurgatória e, envolvidos nas chamas, pelos pecadores que, contorcidos, erguem as mãos ao alto, suplicando clemência. A intervenção misericordiosa dos Céus é feita pela representação de diversas figuras divinas ( Jesus Cristo Crucificado, a Virgem Maria, o Espírito Santo em forma de Pomba, entre outros) que intercedem em auxílio dos pecadores e vão retirando do suplício as almas entretanto purificadas. Um aspecto interessante que importa referir é que certos retábulos mostram cabeças de reis coroadas, frades, bispos com a mitra, etc, Depreende-se que até os poderosos não escapavam à justiça divina. Claro que as crianças não aparecem, pois a sua alma é pura…
Desconhece-se a origem destes monumentos, porém já os Gregos, Os Celtas, Os Romanos e outros povos da antiguidade erguiam monumentos à beira dos caminhos e nas encruzilhadas dedicados aos seus deuses protectores dos viajantes, por exemplo os Lares Compitales e os Lares Viales dos Romanos. A Igreja primitiva, na sua lógica de expansão do cristianismo, foi substituindo estes monumentos pagãos por cruzes de madeira e cruzeiros de pedra. Esta situação perdura por toda a Idade Média. Mas as Alminhas só aparecem bastante mais tarde. Não podemos esquecer que o dogma Purgatório não aparece, não faz parte da Arte Medieval. Só com o Concílio de Trento, em 1563, a Igreja reafirma dogmaticamente a existência do Purgatório. Assim, as Alminhas prendem-se inicialmente com este dogma, com o fascínio ancestral por determinados locais e ritos mágico-religiosos (encruzilhadas). Só a partir do século XVI é que em Portugal começam a surgir as primeiras representações do Purgatório. Assim, e devido à dificuldade de datar a maior parte destes documentos, só se pode aceitar a sua disseminação a partir do Século XVIII e XIX.
Apresento-vos a alminha do Alto da Cruz, situada numa encruzilhada que basicamente divide as terras de Cunha Baixa e as de Abrunhosa do Mato. O seu estado de conservação é lamentável. Urge o seu restauro. Pela minha parte cá continuarei disponível para ajudar as entidades locais na sua preservação.
 
21 outubro 2005
  Carvalha Gorda - Um monumento esquecido?

Em Abrunhosa do Mato não abundam os monumentos históricos, mal se contam pelos dedos de uma mão. E por incrível que pareça quando os havia, mandavam-se destruir, em nome do progresso...
Antes que o progresso faça das suas, aqui por Abrunhosa do Mato, apresento-vos a Sepultura Antropomorfica escavada na Rocha, a única desta localidade. Ao que sei havia outra, nos Vais, mas alguém, no passado, a fez explidir para resgatar o pote das moedas de oiro aí escondidas por uma moira...
Situa-se a meia encosta de um monte, no lugar já referido. Monte granítico no interior de uma mata, onde abundam os pinheiros e a vegetação rasteira. Chega-se lá tomando a estrada que segue de Abrunhosa do Mato para as Contenças de Cima, a 200 metros antes da ponte da Alçaperna, à esquerda. Não nos aparecem aqui vestígios de antigas estruturas, nem espólio de qualquer tipo; apenas este túmulo, isolado. Antropomórfica, simetricamente construída. Cabeça em forma de ferradura, com ressalto, bem diferenciada dos ombros, cujos ângulos são arredondados. Lados curvilíneos, equidistantes de um eixo central. Pés arredondados. Base subindo progressivamente até aos pés.
Mede de 175 cm. Larg Cabeça:27cm; Larg Ombros:47Cm; Larg Meio:40cm; Larg Pés:25cm; Prof cabeça:15cm; prof pés:10cm; prof Meio:21cm. Está orientada de Norte para Sul.
Tipologicamente caracteriza-se por ter uma cabeça tipo E e tronco tipo F. Assim, está-se perante uma sepultura de transição, podendo cronologicamente situar-se no século X.
Não se sabe mais nada sobre este monumento funerário; a quem pertenceu; quem o mandou construir; quem o construiu...
Porém, compete a todos nós cuidar que se mantenha intacto. A Junta de Freguesia, como entidade local capaz de zelar pela preservação do nosso património, deverá, a meu ver tomar a cargo essa tarefa. Pela minha parte, e com a minha preparação técnica sobre a matéria, estou inteiramente disponível para toda e qualquer colaboração. Basta, para tanto, que assim se queira.
PS não tenho foto disponível, segue desenho.
TSFM
 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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