NEOARQUEO
03 novembro 2005
  Mó Romana de Guimarães de Tavares


As mós são um dos vestígios luso-romanos mais abundantes. Surgem frequentemente á superfície, infelizmente nem todas intactas. No Concelho de Mangualde existem vários exemplares. Estes vestígios permitem concluir, obviamente, que o cultivo de cereais era intenso e, para proceder á sua panificação, o homem desde cedo desenvolveu processos tecnológicos de moagem.
Mário Cardozo divide estes primitivos sistemas de moagem em dois grandes grupos, sob o ponto de vista da diferença tecnológica. Assim cabem no primeiro grupo os moinhos de vaivém, de rebolo, ou trituradores neolíticos, que eram compostos por duas pedras, uma grande, fixa, concava, e outra mais pequena que triturava os grãos através do movimento de vaivém já referido. O segundo grupo compreende os moinhos rotativos manuais, de igual forma constituídos por dois elementos, mas agora de igual diâmetro: a mó de baixo-a dormente -, e a de cima, a girante.
É comum aparecerem mais exemplares de mós dormentes que girantes, dado que estas são mais frágeis não só pelo trabalho que desenvolviam, quer pelos buracos cegos que tinham, estando assim sujeitas a partirem com mais facilidade. Os buracos cegos eram, habitualmente, abertos lateralmente, em posição oposta, para permitir o encaixe de manípulos. As dormentes, regra geral são mais simples e em maior número.
Apresento a Mó de Guimarães de Tavares. Encontrada na estação romana daquela aldeia, na Quinta do Costa, aquando da escavação, onde eu participei, e que pôs a descoberto algumas estruturas e algum material: cerâmica diversa, “terra Sigillata”, pesos de tear, ferros oxidados, datáveis dos trê primeiros séculos da nossa Era. Neste momento os materiais e a mó estão sob a custódia da ACAB (Associação Cultural Azurara da Beira).
Trata-se de uma mó dormente, com superfície de moagem com inclinação para os bordos. Lados verticais. Base direita, apenas desbastada. Possui buraco central, regular, tronco-cónico (profundidade: 41 mm). Em granito. Mede de diâmetro 42 cm, com uma altura de 12 cm.
Não tenho foto, segue desenho. Já tenho foto, cedida gentilmente pelo Dr. Pedro Nóbrega.
 
<$Comentários$>:
Eu mesmo vou enviar-te uma foto das escavações, se estas ainda não estiverem alagadas. A questão que eu gostava de deixar em aberto, é, porque se abandonaram as escavações da “Quinta do Costa”? o Sr. Natalino Viegas, dono das terras, nunca colocou qualquer entrave á exploração do nosso património arqueológico, será que é por a arqueologia não ser uma actividade rentável? No meu ponto de vista a arqueologia pode ser muito rentável, não só a nível cultural, como se tenta defender muitas vezes, mas também ao nível do capital e não é preciso encontrar nenhum tesouro, basta ser organizado e levar as coisas até ao fim.
Relativamente á mó, os romanos já comiam muito pão, estas que apareciam longe dos rios eram movidas por animais? Num sistema idêntico ás noras?

Um abraço
 
As escavações ainda não estão alagadas, graças à boa compreensão dos proprietários. Estão sim cheias de ervas...
Quanto à mó, eu envio-lhe uma foto de quando ela esteve exposta na Biblioteca Municipal.
 
Caro Amigo e colega Pedro Nóbrega, obrigado pela foto. E, ainda bem que os proprietários tem o raro bom senso de conservar aquele sítio. Valha-nos pelo menos isso.
 
Caro Rui, estas mós a que me refiro no artigo, e em concreto á da tua terra (Guimarães Tavares), é uma mó manual, movida pelas mãos. São mós de pequenas dimensões, transportáveis, até. Quanto á questão do "abandono" das escavações, é assim: não se trata propriamente de um abandono, digamos que pelo que se expõs dá para ter uma ideia de que tipo de Habitat seria, ou uma habitação rural ou provavelmente os anexos de uma "villa" que poderá estar nas proximidades. De qualquer das maneiras é interessante deixar as coisas como estão e, se houver interesse, mais tarde voltar a escavar. Assim, a ciência avança, novas técnicas são experimentadas e mais nos podem "contar" as futuras descobertas. Não pudemos nunca esquecer que uma escavação é como um livro que se vai lendo, só com a diferença que cada camada que se tira é uma folha que se arranca e nunca mais poderá ser lida...
 
Gostei do artigo. Gostei da última explicação e do termo comparativo. Deixo um pedido: pelo que percebi já tens foto da mó. Não é que a malta não goste de ver aqui os teus desenhos, mas se pusesses a foto... :-)
 
Então, e a pedido vou postar a foto. Aproveito para agradecer publicamente ao Dr Pedro Nóbrega o gentil envio da mesma.
 
TSFM tenho uma mata que é conhecida pela "mata das mós", perguntei na altura o porquê, responderam que tinha pedra boa para fazer as mós dos moinhos. Dizem que as pedras nessa mata têm uma caracteristica de dureza especial. Será que fazendo escavações nesse lugar poderá existir alguma por lá perdida?
 
António, leva-me lá e faremos uma batida de campo.
 
ola add:morena_linda33@hotmail.com ou 969350906
 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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