NEOARQUEO
19 janeiro 2006
  A Arqueologia também tem disto...

Que dirão os meus amigos ao repararem no que resta deste cadeirão? Nada, concerteza…faz parte da nossa vivência. Quanto muito, no mais puro sentido ambientalista, que não deveria estar a apodrecer ali.
Agora imaginem que este era descoberto daqui a 50 000 mil anos? Uma realidade radicalmente diferente da de hoje…
Que perguntas os arqueólogos não farão nessa altura? Que teorias não avançarão?
Será o “trono” de um chefe regional (entenda-se Presidente da Câmara); Será o Cadeirão de um chefe local (leia-se Presidente da Junta); Será a cátedra do Sacerdote do Grande Culto do Descanso?...
Questões transcendentais como estas ecoarão nas salas das Academias de História, artigos altamente eruditos serão escritos nas revistas da especialidade.
Feliz do Arqueólogo que fizer a descoberta…tem aqui matéria para Mestrado ou quiçá Doutoramento…
Com efeito, ainda há que relacionar o cadeirão com os materiais encontrados à sua volta: a lata amolgada de Coca-Cola, a velha lata de atum Bom Petisco, a garrafa de azeite Gallo (cuja inscrição “a cantar desde 1919", datará com rigor absoluto o sítio), o sapato sem sola, o pneu recauchutado ali ao lado. Qual o significado simbólico do púcaro, de barro grosseiro, já sem asa, se encontrar junto da pata esquerda do cadeirão? Que local é este? Estaremos perante um Santuário repleto de oferendas e ojbjectos mágicos eivados de uma carga psico-simbólica extraordinária?
Estes são os alicerces para a elaboração de uma nova “cultura”.
Bem... na realidade não passa de um velho cadeirão, em madeira, não sabemos se de couro, napa ou tecido, que de velho aqui foi abandonado, porque substituído por outro, novo, e certamente mais confortável…
 
<$Comentários$>:
Sarcástico. Mordaz. Fantástico. Bem ao teu estilo.

Ainda bem que não havia nenhum penso higiénico usado. Esses sim, são uma verdadeira dor de cabeça para os arqueólogos. É difícil determinar de que período são.

Agora mais a sério: partilho, igualmente, da tua preocupação. Esta casa será aquilo que fizermos dela.
 
Esse cadeirão a mim lembra que vou ou venho das lides profissionais … Já passei por ele várias vezes, pensando de seguida, mesmo antes de pensar que deveriam deitar o lixo em outro local qualquer:
- Quantas histórias teria ele para contar? Etc etc.
Agora “jaz” abandonado e desventrado da sua função …

Nós humanos, somos um pouco assim, tão importantes, até ao momento em que ninguém nos dará importância alguma. Uns ficam sem importância tão rápido, que nem se dão contam que já passaram ao anonimato …

Agora imaginem, … o cadeirão não vai resistir 50.000 anos!
Porque é que só pensamos em construir coisas tão efémeras? Se ouvirmos mais os outros e não fazer algo só porque eu quero posso e mando… será que da lei da morte nos vamos libertando…se isso acontecer, aí sim … viveríamos mais de 50.000 anos.

Gostei do post.

Abraços
 
Na arqueologia, tal como nas outras ciências, por vezes, sustentam-se teorias em pressupostos errados.
Ao descobrir algo novo, ninguém está livre de cair nesse erro. Por isso, de quando em vez, ouvimos notícias de novas descobertas que vêem destronar antigas teorias, que eram consideradas como indubitáveis verdades. É assim o devir do conhecimento da ciência e nunca nos devemos esquecer disso.

Se calhar, este cadeirão nem é assim tão antigo - durou foi pouco. Provavelmente foi o sol e a chuva que acabaram com ele depressa. Os donos deviam ter gatos ou cães com umas unharras ou dentuças desgraçados.
Comigo já aconteceu por duas vezes. O cheque do pagamento ainda não tinha sido descontado e o cadeirão estava feito num fanico, pronto para a sucata.
Mas os arqueólogos do futuro não vão ter que se preocupar.
Não os abandonei assim...
 
Este tipo de perguntas vêem-e à cabeça de cada vez que vou para ocampoprospectar e muitas vezes só encontro lixo, os sítios arqueológicos do futuro ?!?!?!?!?
 
É importante não substimar a categoria dos cadeirões e a sua relação com a História... é importante não esquecer que já houve um que se impôs e entrou na História de Portugal associado a uma determinada queda!
 
É verdade blogoexisto, e era daqui perto...
 
Eu também vi esse cadeirão, abandonado, gasto pelo tempo e pelo progresso (Não sei se ali é a Serra das Meadas). Penso que as tuas elações não poderiam ser mais correctas, todas as coisas têm o seu tempo e a sua utilidade, por vezes encontram-se objectos do passado com os quais se fazem grandes teses e o achado não passou de algo para digladio do seu criador. Com as “vénus” dos teus posts anteriores por exemplo, a malta da época com vontade desenfreada de sexo e raparigas jeitosas pedia ao amigo mais próximo, que tinha jeito para isso, para lhe fazer uma escultura do que mais apreciava nas beldades da altura, rabos e seios, pronto e lá vem a tese sobre a fertilidade e deusa terra.
Espero que não encontrem umas certas revistas que eu devo ter perdido nalgum canto, que começam por G, têm no meio aleatoriamente IN e acabam em A, porque se não no futuro pensam que as historias de Sodoma e Gomorra estão mal colocadas no espaço e no tempo, já para não concluírem, que tivemos caudas para a frente noutros tempos.

O importante, no meu ponto de vista é a imaginação fértil, e isso não falta ao TSFM, com uma cadeira abandonada num lugar inóspito, cercada de objectos degradados construiu um verdadeiro filme de Hollywood, muito próximo ao Mad Max, parabéns e mantêm esse espírito critico e criativo.

Aquele abraço (não o outro)
 
Lamentavelmente, temos muitos objectos cuidadosamente abandonados pelo nosso concelho.
Acho que todos os meios são poucos para chamar atenção destas situações, quando os dias se tornarem maiores, vou ver se encontro algum objecto, que possa ser sujeito à análise do meu amigo.
 
pois é.. aquilo que ja foi o descanso de alguns hj cansa á outros.. ver!
 
Da perspectiva do cadeirão: "Todos os cus que por mim passaram, cheiravam a boa comida metabolizada, daquela só acessível a quem é rico e poderoso."
 
Adorei o texto.
 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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