NEOARQUEO
18 janeiro 2006
  Vénus, novamente...



Este artigo dá continuidade ao anterior na divulgação para um “público” não expert de parte da arte do paleolítico. Daí a expressão desempoeirar a Arqueologia... Várias são as interpretações que os pré-historiadores avançam para determinar o que estaria subjacente ao pensamento simbólico do homem paleolítico. Dizer-se que este ou aquele objecto, esta ou aquela representação pictórica faz parte de um determinado culto, pode ser falacioso, pois varia consante os autores: Leroi-Gouhran teorizou que a arte pictórica das cavernas evoluiu em termos de carga simbólica desde o primeiro momento até ao fim do Madalenense. Michel Lorblanchet alerta que as gravações de Chauvet deitam por terra todo o suporte da teoria do autor supra citado. Já lá vai o tempo da interpretação ingénua da “arte pela arte”, ao jeito de Soutuola (Altamira), já lá vai o tempo da interpretação global, aventada por Reinach em 1913, em que o fundamental era “ver” uma arte mágica (magia propiciatória ou magia de fecundidade), nascida e apoiada nas teorias do evolucionismo antropológico e sedimentada na síntese de Henri Brueil e largamente difundida pelos espanhóis e pelo já citado Leroi-Gouhran.
Hoje está-se fundamentalmente na desconstrução e no reposicionamento de todo o quadro cronológico e interpretativo da arte quaternária. As garvuras do Côa são a pedra basilar para esta nova abordagem. Autores como Martinho Baptista, Oliveira Jorge, Jelinek, entre outros, nenhum afirma categoricamente o que está subjacente a tais representações artísticas. Quando falam de Deusas da Fertilidade, culto disto ou daquilo…fazem-no com o cuidado de apresentar a sua teoria como sendo uma probabilidade, uma interpretação. Logo os pré-historiadores, dão a sua interpretação (subjectiva,) acerca da realidade (objectiva) que lhes é apresentada.
Parece então que estas estatuetas são um culto da procriação talvez não porque o artista assim o quisesse, mas porque os pré-historiadores assim o entenderam. Na interpretação da arte paleolítica várias teorias já se opuseram: Grafismo vs simbolismo, naturalismo vs esquematismo e realismo vs abstracção. Mas, entre o que o “artista” criou e o que o “critico” vê, muitas vezes vai um passo de gigante…
Que carga simbólica terão? Que representam estas estatuetas? Mulheres. Até por que no mesmo sítio de Vestonice aparecem outras bem diferentes das anteriores, comparem-se as fotos: não têm ventres dilatados,
outras são mamas estilizadas. A par das mulheres exageradamente gordas apareceram nos mesmos sítios arqueológicos mulheres magras, estilizadas. Interessante é verificar que neste sítio (Vestonice) uma quantidade diversa de estilos e de motivos coexistiram no interior de uma mesma cultura numa área limitada: a Morávia (Tchecoslováquia).
Apenas chegou até nós parte da arte deste homem, outra inevitavelmente se perdeu: será possível descodificarmos e compreendermos todo o saber paleolítico a partir da sua estética remanescente?
E destas rectas, gostam?
 
<$Comentários$>:
Como Kemper disse:
“O primeiro grande passo no domínio da escultura realizou-se quando ele compreendeu que podia dar uma forma concreta a uma imagem”.
Gostei do artigo.

Abraços
 
Li, reli e aprendi. Prefiro as curvas, apesar de tudo.
 
Ah, em relação à arte, subscrevo o teu texto: Quase sempre os olhos de quem vê, vê mais coisas e coisas diferentes daquelas que vêem os olhos de quem pinta. O pintor, por exemplo, pinta "um" quadro. Este, rapidamente, se transforma em milhares, em função do olhar de quem o vê.
 
Gostei do artigo, e já andei por aí a navegar e o resultado dá sempre mulheres, adoração fertilidade. E mulheres, sabes parece que agora já gostam umas das outras o homem já tinha descoberto isso há milhões de anos, enfim!
 
Eu gostava de saber o tamanho dessas Vénus das fotografias. Se medirem cerca de 30 cm, pronto 15 a 20 cm, pode ter sido descoberta a primeira sexshop paleolítica e as tais Vénus feitas para dar prazer feminino.

Um abraço
 
muito bom
 
GreenSky, obrigado pela dica. Só agora é que entendi para é que servia aquele objecto de duas pontas.
E eu a julgar que era o equivalente a um garfo e afinal era um twix (satisfaz duas vezes)...
 
belo artigo sem duvida.. tou a ver que tudo isto vai da interpretação que damos as coisas.. ou quase isso :) ja que tudo é probabilidade.. :)
 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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