Este artigo dá continuidade ao anterior na divulgação para um “público” não expert de parte da arte do paleolítico. Daí a expressão desempoeirar a Arqueologia... Várias são as interpretações que os pré-historiadores avançam para determinar o que estaria subjacente ao pensamento simbólico do homem paleolítico. Dizer-se que este ou aquele objecto, esta ou aquela representação pictórica faz parte de um determinado culto, pode ser falacioso, pois varia consante os autores: Leroi-Gouhran teorizou que a arte pictórica das cavernas evoluiu em termos de carga simbólica desde o primeiro momento até ao fim do Madalenense. Michel Lorblanchet alerta que as gravações de Chauvet deitam por terra todo o suporte da teoria do autor supra citado. Já lá vai o tempo da interpretação ingénua da “arte pela arte”, ao jeito de Soutuola (Altamira), já lá vai o tempo da interpretação global, aventada por Reinach em 1913, em que o fundamental era “ver” uma arte mágica (
magia propiciatória ou magia de fecundidade), nascida e apoiada nas teorias do evolucionismo antropológico e sedimentada na síntese de Henri Brueil e largamente difundida pelos espanhóis e pelo já citado Leroi-Gouhran.
Hoje está-se fundamentalmente na
desconstrução e no
reposicionamento de todo o
quadro cronológico e interpretativo da arte quaternária. As garvuras do Côa são a pedra basilar para esta nova abordagem. Autores como Martinho Baptista, Oliveira Jorge, Jelinek, entre outros, nenhum afirma categoricamente o que está subjacente a tais representações artísticas. Quando falam de Deusas da Fertilidade, culto disto ou daquilo…fazem-no com o cuidado de apresentar a sua teoria como sendo uma probabilidade, uma interpretação. Logo os pré-historiadores, dão a sua interpretação (subjectiva,) acerca da realidade (objectiva) que lhes é apresentada.
Parece então que estas estatuetas são um culto da procriação talvez não porque o artista assim o quisesse, mas porque os pré-historiadores assim o entenderam. Na interpretação da arte paleolítica várias teorias já se opuseram:
Grafismo vs
simbolismo,
naturalismo vs
esquematismo e
realismo vs
abstracção. Mas, entre o que o “artista” criou e o que o “critico” vê, muitas vezes vai um passo de gigante…
Que carga simbólica terão

? Que representam estas estatuetas? Mulheres. Até por que no mesmo sítio de Vestonice aparecem outras bem diferentes das anteriores, comparem-se as fotos: não têm ventres dilatados,
outras são mamas estilizadas. A par das mulheres exageradamente gordas apareceram nos mesmos sítios arqueológicos mulheres magras, estilizadas. Interessante é verificar que neste sítio (Vestonice) uma quantidade diversa de estilos e de motivos coexistiram no interior de uma mesma cultura numa área limitada: a Morávia (Tchecoslováquia).
Apenas chegou até nós parte da arte deste homem, outra inevitavelmente se perdeu: será possível descodificarmos e compreendermos todo o saber paleolítico a partir da sua estética remanescente?