NEOARQUEO
15 abril 2006
  Abrunhosa do Mato: calçada...romana? medieval? ...

Ultimamente o tema mais discutido entre as pessoas que mais se interessam por estas coisas dos nossos antepassados tem sido as vias de comunicação. De facto, o homem desde cedo teve necessidade de se deslocar com as suas mercadorias, e outros bens de um local para o outro. Por conseguinte teve de utilizar trilhos, construir caminhos, vias, estradas, que de uma forma mais confortável e rápida lhe permitissem efectuar essas deslocações. A propósito do post publicado no Roda de Pedra, apresento-vos uma calçada em Abrunhosa do Mato. Na zona do Carregal, fica esta calçada à qual me é difícil atribuir uma cronologia. Conforme se pode ver na foto, o troço é constituído por lajes de média a grande dimensão. Verifica-se também que possui já uma mistura de pedras mais pequenas em associação com as tais lajes maiores, o que baralha ainda mais a cronologia. Implanta-se numa subida, o que garantia o vencer de forma fácil a inclinação e a não degradação rápida da via. Logo ao lado, no muro que separa o caminho de uma propriedade agrícola, estão dois monumentos, em granito, que eu considero serem duas cabeceiras de sepultura, provavelmente medievais, ou mesmo posteriores. É natural que estejam fora do sítio original, mas certamente este ficará perto. Mais tarde falarei destas estelas. A cerca de 500 metros fica a estação arqueológica romana, que já publiquei, Oliveirinha. Esta via faz parte da antiga estrada que ligava Abrunhosa do Mato a Cunha Baixa. Assim, perante os elementos que possuo não é fácil atribuir uma cronologia a esta calçada. Poderemos, eventualmente estar perante uma via que inicialmente terá sido romana, se manteve naturalmente na Idade Média, tendo sido restaurada, e que teve continuidade de utilização pelos tempos fora, até ser finalmente abandonada em virtude da sua substituição pela estrada que logo por ali passa. O processo de localização e identificação na categoria de "via com cronologia indeterminada" junto do Instituto Português de Arqueologia, já foi feito e enviado por mim. Mais novidades sobre a viação antiga do concelho serão atempadamente publicadas.
 
<$Comentários$>:
De facto as calçadas romanas e medievais suscitam sempre dúvidas sobre a sua verdadeira cronologia!Existem mesmo alguns exemplos de calçadas classificadas como romanas, que são contudo consideradas medievais por especialistas na área!Quanto ao muro, penso que se trata efectivamente de estelas!É comum encontrar-se exemplares destes em muros de divisão de propriedade!

pedrinha rolante
 
Então é essa a pedra de que já me falaste algumas vezes... Tenho que fazer uma caminhada por lá, um destes dias...
 
Pedrinha Rolante, conheces algum exemplar igual a estas estelas?
 
Uma Páscoa com saúde é o que eu desejo!
Abraços
 
Ó estela que vais tão alto..
expliquem lá isso melhor das estelas se faz favor que para mim que não domino a vossa linguagem arqueológica, estela é uma estrela com um erro ortográfico.
boa páscoa
 
Tsfm, tenho conhecimento de 2 estelas que uma colega de curso encontrou em Murça e sobre as quais realizou o seu trabalho de seminário! Não sei se são iguais a esta, mas foram encontradas também em muros de divisão de propriedade!
 
No que toca a vias romanas, muitos especialistas, so as consideram como tal, no caso de haver algum marco miliario, mas mesmo que nao o seja e sem duvida medieval, essa estela interesante vem confirmar isso mesmo. Pelas "nossas" terras tambem foram encontradas pelo menos duas.
 
Caro Tavares, se algo me faz refectir, é precisamente a confirmação de;
"dois monumentos, em granito, que eu considero serem duas cabeceiras de sepultura, provavelmente medievais, ou mesmo posteriores."

Estarem as mesmas, localizadas "simplesmente" diria até humilhantemente, em muros de separação de propriedades.
Sabendo o respeito do "povo" e das gentes de então, que nutria, pelas coisas sacralizadas, como é o caso da cruz, que realmente me parece ser a cabeceira de uma sepultura "quem sabe antropomorfica" como o amigo sabe e já estudou o tema.
Como é possivel o "desprezo",?"a falta de respeito" ? em as gentes catolicíssimas de então relegarem para segundo plano um simbolo "sagrado" do povo dito cristão e temente a Deus.
Sinceros cumprimentos e admiração de; Mais um demopsicologo JF
 
Veja se por perto não haverá alguma sepultura escavada na rocha. Sabe que por vezes as sepulturas eram postas ao pé dos caminhos, costume este mais enraízado na Idade Média. Os problemas das vias são sempre os mesmos. A sua cronologia, embora neste caso eu me incline para uma cronologia mais recente.
 
Há nesta região (e designadamente em Fornos de Algodres) muitas sepulturas escavadas na rocha próximas de caminhos (sendo certo que a cronologia dos ditos caminhos pode ser diferente da das sepulturas). Em todo o caso, tanto quanto julgo saber, a associação de cabeceiras de sepultura medievais a sepulturas escavadas na rocha é extremamente rara, até porque, em regra, existe um desfasamento cronológico entre os períodos de maior utilização de umas e outras e até algumas diferenças nas atitudes perante a morte e a individualização da sepultura.
Algumas associações de estelas discoides a sepulturas escavadas na rocha que por vezes se encontram, poderão até não passar de "restauros" recentes, bem intencionados mas sem qualquer base científica (conheço pelo menos um caso).
 
Aguardo novidades, da informação que enviei da via que passa aqui na Roda, entretanto vou fazer umas fotos, para te enviar por correio electrónico, de algumas pedras "esquisitas", para me dares a tua opinião.
 
Olá TSFM!

Para além de não ter características muito bem definidas, essa secção de estrada também é um pouco curta para se poder identificar e datar com rigor.
...
Segundo dizem os antigos essas duas pedras com uma cruz marcam o lugar onde uma matilha de lobos atacou e devorou mãe e filha.
Será que a tradição oral fala verdade?
 
E o que gostei mais de ler foi o envio da informação para o IPA sobre a localização / identificação.
se todos fizessem isso seria uma mais valia para o próprio património.
Um dia destes (outubro 2004) falhei a descoberta de uma mamoa e um grupo de investigadores universitários (UMinho) dsecobriram-na 1 mês depois. E só este mês de Abril fizerem referência à sua existência durante um período de consulta pública. Se o tivessem dito desde logo a mamoa não seria destruída.
Depois digam que são os engenheiros os principais inimigos do património ...
 
Ainda que pequeno, gostei de saber que os romanos tambem conseguiram conquistar a Abrunhosa do Mato e facultar-lhe modernos caminho (para a época), actualmente é mais dificil fazer chegar lá as novas estradas.

Um abraço

PS - Viva Roma
 
E tudo aqui tão perto...!

Alex, Posso confirmar a tua mencionada tradição, assim que a minha esposa viu estas imagens disse: olha o sitio "...onde uma matilha de lobos atacou e devorou mãe e filha..."

Cumprimentos
 
Muito bem o que a gente por aqui vai aprendendo, e aproveito para citar Henri Ford;
-"É verdadeiramente velho o homem que pára de aprender, que tenha 20 ou 80 anos."
Poder ser que um dia viaje pelas minhas terras e se encontre algo de interressante.
 
Caríssimos amigos, como puderam verificar levei algum tempo a vir aqui dizer alguma coisa. Estive fora. Agradeço os comentários e as pistas a todos, vamos lá a ver se conseguimos definir melhor o que por aqui há.
Devo no entanto informar o Joaquim Batista que nas rezondezas não existe nenhuma sepultura escavada na rocha. Apenas as estelas e o Habitat romano de Oliveirinhas, referido no texto.
Quanto á lenda, de facto conheço a lenda, presumo até que não haja um único Abrunhosense que não a conheça, porém é uma lenda que a meu ver pouco esclarece. Faz referência á ma~e e filha, pois uma estela é grande e a outra é pequena, sugerindo efectivemente que os "mortos" eram mãe e filha. Porque não pai e filho? è uma lenda interessante, mas a minha imaginação não consegue retirar qualquer ajuda explicativa. Talvez os meus amigos Demopsicólogos possam sugerir algo.
 
tsfm, era nesta estrada que eu falava á semanas atras, com todos os vestigios romanos na zona tudo indica que seria por ali que eles passavam, pois eles ainda não tinham descuberto o helicoptero.

um abraço.
 
tsfm, era nesta estrada que eu falava á semanas atras, com todos os vestigios romanos na zona tudo indica que seria por ali que eles passavam, pois eles ainda não tinham descuberto o helicoptero.

um abraço.
 
Essa via e cabeceiras de sepultura estão sobre uma linha recta que vai desde a fonte arnós até à curva "do salto" no Carregal.
É uma linha recta com aproximadamente 700m.
 
Aconselho a leitura desta obra, de certeza que encontrará mais dados sobre esta suposta cabeceira de sepultura!

BARROCA, M.J. (1987) Necrópoles e Sepulturas Medievais de Entre-Douro-e-Minho (séculos V a XV), Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica, (policopiado), Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 1987.

pedrinha rolante
 
Pedrinha, muito obrigado pela achega e pela recomendação do Livro do Professor Barroca. Tenho já alguns elementos recolhidos e e espero completar o estudo. Penso publicar na revista Beira Alta (Viseu) ou noutra, Mas naturalmente em primeira mãp farei um breve resumo aqui neste espaço.
 
Alex, a linha recta não via tanto lá a cima. Pois, como sabes, a antiga estrada (será que se pode chamar de estrada?)no final desta calçada atravessa a actual estrada e segue em frente indo desembocar na zona das traseiras da Cunha Baixa ( lado direito) de quem vai de A Mato. E faz ligação ao Cemitério da Cunha Baixa. Não passa na curva do "salto".
 
Em asfalto, betão ou simplesmente terra batida, as vias de comunicação são indispensáveis para o desenvolvimento de uma região.

Já na antiguidade as pessoas tinham necessidade de criar as suas acessibilidades tentando melhorar sistematicamente ao longo dos tempos as suas condições de vida.

Antigamente as pessoas construiam, à medida das suas necessidades, autênticos monumentos, não esquecendo que os meios de que dispunham eram mínimos.
Era gente de grande valor. Daria vontade de perguntar, o que seriam capazes de fazer com as tecnologias actuais?
 
Mangas,
na realidade dá que pensar...
 
Ora viva!
Esta mania de chamar romano a tudo o que se encontra está na moda. Esta calçada, a ser, no máximo, é medieval. Nunca romana. Já viram bem o padrão do pavimento? Nem pensar! E por muito gasta que esteja!
 
Caro anónimo, obrigado pela achega sobre o post. Mas na realidade eu nunca chego a afirmar da sua romanidade. Enviei para o IPA o processo de identificação e classifiquei-a como cronologia indeterminada. Admito apenas, tendo em conta a contextualização arqueológica próxima, que pode ter sido um trajecto romano, restaurado e mantida na Idade média e com ultilização (consequente restauro) posterior.
Volte sempre, com achegas que nos possam ilucidar a todos, pois é para isso que cá estamos.
 
Olá,Antonio!
Sou Salete, do Brasil. Estou fazendo uma pesquisa sobre "calçadas". Desejo saber que notícias temos da primeira calçada do mundo. Calçada como entendemos hoje: margeando a rua, alguns centímetros acima dela, delimitada com pedra chamada por aqui de "meio fio". Local público, destinado basicamente para pedestres. Vc (ou alguém deste blog) tem alguma informação sobre isso? Pode(m) me auxiliar?
Grata
Salete
 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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