NEOARQUEO
02 abril 2006
  Mó Romana da Roda, Mangualde

As mós são um dos vestígios luso-romanos mais abundantes. Surgem frequentemente à superfície, ou são postas a descoberto por altura dos trabalhos agrícolas. Infelizmente nem todas chegam até nós intactas, como é o caso. Estes vestígios permitem concluir, obviamente, que o cultivo dos cereais era intenso nas épocas recuadas em que as terras de Mangualde faziam parte do vasto Império Romano.
Para proceder à panificação, o homem desde cedo desenvolveu processos tecnológicos de moagem. Mário Cardozo dividiu estes primitivos sistemas de moagem em dois grandes grupos, sob o ponto de vista da diferença tecnológica. Assim, cabem no primeiro grupo os moinhos de vaivém, de rebolo, ou trituradores neolíticos, que eram compostos por duas pedras, uma, grande, fixa, concava, e a outra, mais pequena, que triturava os grãos pelo movimento de vaivém já referido. O segundo grupo compreende os moinhos rotativos manuais, de igual forma constituídos por dois elementos, mas agora de igual diâmetro: a mó de baixo, a dormente e a mó de cima a girante.
É comum apareceram mais exemplares de mós dormentes que girantes, dado que estas são mais frágeis, quer pelo trabalho que desenvolviam quer pelos buracos cegos que possuíam, estando assim sujeitas a partirem com maior facilidade. Os buracos cegos eram, habitualmente, abertos lateralmente, em posição oposta, para permitir o encaixe de manípulos. As dormentes, regra geral, são mais simples e, como vimos em maior número.
Apresento a mó da Quinta Branca, junto à aldeia do Roda, na Freguesia de Mangualde, que pertence ao segundo grupo tecnológico referido. Foi encontrada nos terrenos de cultivo da quinta do meu amigo João Venâncio. Este referiu-me, inclusive, que na altura de se prepararem as terras para o cultivo era frequente aparecer pedaços de telhas grossas em cerâmica, bem como outros fragmentos de cerâmica sugestivos de pertencerem a potes, ou caçoilas. Numa breve batida de campo pude comprovar a existência de alguns fragmentos de cerâmica comum, de aspecto geral antigo. Não encontrei, todavia, nenhum pedaço de telha, mas ficou prometida uma nova prospecção em melhor altura. Estaremos perante um local onde existiu uma habitação rural luso-romana?

Trata-se de uma mó dormente, em granito, cuja superfície de moagem tem inclinação para os bordos. Lados verticais, com ligeiro afunilamento para a base, que é direita, mas grosseiramente desbastada. Possui orifício central, regular, tronco-cónico. Um dos lados já se encontra danificado, vítima dos séculos.
Inédita.

METROLOGIA
Diâmetro: 40; Altura lados: 7; Altura centro: 14;Diâmetro Orifício: 4;Profundidade Orifício: 4.
Nota: as medidas são em centímetros.
 
<$Comentários$>:
Mas que belo achado na quinta do "meu" vizinho :-)
E fica provado que mós não se encontram só em Guimarães de Tavares. Na Roda também as havia :-)
Terá o nome da povoação alguma relação com o ribeiro que lá passa e os as mós que se lá encontram?
O Zel vai ficar todo contente com esta referência. Vai, vai!
 
Não há nada que a terra da ciência não tenha.
Pelo tamanho que descreves era uma mó portátil para fabricar a farinha que dá origem á bela bola.

Um abraço
 
havia umas em Santiago...acho!


Jinhos, BShell
 
na.. terra da ciencia nao é S. Cosmado? eu penso que é.. mas mudando de assunto.. ouvi aí falar em mo.. depois farinha e bola.. e penso ate ter ouvido falar em Zel..
e que tal um forno para o proximo post? ;)
 
Essa questão que pões no final “se existiu uma habitação rural luso-romana”, já deve chegar para te “moer” o juízo … eu sempre disse que, isto de mós nos dão a volta à cabeça.

Abraços
 
caro antónio
havendo cerâmica comum doméstica é bem provável que estejamos perante local de povoamento, vulgo habitat.
como eram as pastas da cerâmica! era a torno ou manual.
parabéns por dares a conhecer mais uma estação inédita!
 
Ora bem haja, pela descoberta e pela excelente descricao.
Espero que o jantar do dia das mentiras, tenha sido a contento.
Um abraco.
 
Pedro,
os fragmentos de cerâmica, pela dimensão deles não dá para avaliar correctamente se se trata de peças feitas a torno ou manualmente. O João venâncio referiu também a existência de telhas, pela forma como as descreveu parece-me que se trata de tegulas. Mas, neste momento, tal como referi, não foi possível apanhar mais nada à superfície. Na altura que o meu amigo plantar as batatas volto lá. está prometido. Depois dar-lhe-ei conta dos achados. É, na realidade trata-se, provavelmente, de mais um habitat para engrossar o Levantamaneto.

Quanto aos outros comentaristas, obrigado pelas palavars elogiosas.

O Fornense tem razão...lá pelas bandas da Roda só falta o forno quente para a bola com sardinha. Bem, pela minha parte estão os meus amigos todos convidados.
 
Pelos vistos ainda há muito para por a descoberto no nosso concelho. A carta arqueológica está longe de estar completa. Bom achado!
Espero que na arranca das batatas surjam mais materiais.
Obrigado pela revelação
Um Abraço
 
Por causa de uma mó tenho uma pequena História:
um dia fui prospectar e na equipa havia uma geóloga que de arqueologia era zero.
lá ia ela com o sue martelinho.
pegou numa pedra e zás! partiu o calhau.
nem tive tempo de dizer "Espera aí!" e lá se foi uma mó.
 
Estou a escrever este comentário com um grande sorriso, duas vezes seguidas referências da Roda , é obra.

Em casa dos meus avós paternos está uma mó que tem muitas histórias, contadas pelas pessoas mais idosas desta terra, um dia destes visto o fato de macaco, e vou ver como se encontra.

Com estes posts, lá tenho que deitar o lume ao forno, e tu prepara a música.
Talvez para os meados de Maio, depois confirmo.

Já viste o meu post da Via Romana ?

Tenho de comprar as cordas....rssssssssss

Grande abraço
 
Só para dar um jinho de Boa Noite

Bshell
 
Bem interessante. :)

Sempre gostei de História.
 
Parabéns pelo blog. Serviço público á arqueologia nacional é sempre de louvar!
pedrinha rolante
 
Maravilha, é descobrir-se por entre outros blogs e comentários pessoas interessantes com muitas habilitações e que dão a conhecer um pouquinho mais de si e de nós, muitas pedrinhas rolantes pelo seu caminho.Bom fim de semana.
 
Subscrevo as palavras da Isabel, o seu espaço é excelente! Parabéns!
 
Na Roda, também existe bom Vinho, aproveito para deixar um abraço ao meu amigo "Fidalgo".. Já agora a titulo de informação, um pouco mais abaixo da Roda, antes de Fagilde, à esquerda existe uma povoação com o nome de Vila Garcia, nessa localidade, uma pequena estrada dá acesso a um Convento com mais de 500 anos, infelizmente em grande degradação, mas (aind) com alguns "traços" interessantes, nomeadamente no seu interior. Dá para visitar na boa. Para a próxima, e ainda nessa zona, falo-vos duns interresantes moinhos de agua.. Beijinhos
 
Vejo que por estes lados a tertúlia de arqueologia vai animada. E vale a pena aqui vir, por esse motivo e pela simpatia do autor e o interesse dos comentadores.
Já que aqui estou sempre aproveitava o ensejo para perguntar se aguém me pode dar informações mais ou menos precisas sobre uma tal capela de S. Venâncio, aqui para os lados das Cortes, em Leiria. Parece-me que está catalogada no Museu de Arqueologia mas eu, muito sinceramente, não sei como obter esta informação via Net.
Entretanto vou ver se consigo que alguém me franqueie as portas para o interior da capela.
Um abraço.
António
 
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António Tavares. Arqueólogo e Gestor do Património Cultural. Actividade liberal, Arqueoheje e Município de Mangualde.


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