Machado de pedra polida de Abrunhosa do Mato ou de Cunha Baixa?

Hoje apresento uma peça que, por ter sido encontrada avulsamente, me tem causado alguns problemas.
Trata-se de um machado em pedra polida. De facto, em 1987 procedi ao registo de actualização no “Levantamento Arqueológico do Concelho de Mangualde” deste achado. Aí relatei que o machado fora descoberto por altura da descava e arroteamento dos terrenos no lugar de Pessegueiro, em frente à nova rotunda do entroncamento para Vila Ruiva e Abrunhosa do Mato, em Cunha Baixa. O referido artefacto veio novamente ver a luz do dia através da enxada de um dos trabalhadores. Foi assim que me foi apresentada a descoberta. Foi assim que escrevi.
Devo referir, no entanto, que quem me fez este relato não foi o autor da descoberta, foi o proprietário do Café Cantinho, de Abrunhosa do Mato, a quem foi oferecido o machado.
Mais tarde verifico que no livro “O Património Arqueológico do Concelho de Mangualde”, editado em 1992, pela Câmara Municipal de Mangualde, da autoria de Luís Filipe Gomes e Pedro Sobral de Carvalho tal machado está referido como tendo sido descoberto em Abrunhosa do Mato, em conjunto com outros artefactos da Pré-História, no pátio interno de uma casa de habitação, junto ao Café Cantinho.
De facto, nos anos de 86 ou 87 do século passado, o proprietário do dito café procedia a obras de abertura de alicerces num pátio e foi durante a remoção de entulhos e escavações que surgiram vários objectos em pedra polida, e outros com trabalho humano, bem como outros que não apresentam trabalho humano. Na altura também o proprietário me mostrou os achados deste sítio. Fiz, como me competia, o registo de actualização no mesmo “Levantamento…”, no mesmo ano de 1987.
Em consequência temos um machado que é simultaneamente apresentado como proveniente de dois sítios diferentes.
Assim, o proprietário do Café Cantinho prestou relativamente a este machado duas informações diferentes: a mim refere-o como proveniente do Pessegueiro e aos meus colegas apresenta-o como proveniente do sítio onde procedeu á abertura de alicerces para obras.
Sem dúvida que existe confusão: ou a primeira informação que me é dada e que registei no “Levantamento Arqueológico do Concelho de Mangualde” (ACAB e no exemplar que tenho na minha posse) é verdadeira e o machado é de facto proveniente do Pessegueiro, ou então, não sendo verdadeira, temos que aceitar a referência do livro que já citei como certa e o machado desloca-se para Sul, cerca de 2,5 kms.
Na realidade, na colecção de achados de Abrunhosa do Mato existe, para além do machado a que me refiro, um fragmento de machado em pedra polida, em anfibolito, e que também vem referenciado como tendo aparecido durante as mesmas obras no mesmo livro já citado. Trata-se do talão, isto é, a parte de cima do machado. A parte do cume não aparece. Partiu-se em qualquer acidente desconhecido ou porventura durante o seu uso pelos homens do Neolítico. Não se sabe.
Na actualização que fiz ao “Levantamento Arqueológico do Concelho de Mangualde” para registar os achados das obras junto ao Café Cantinho, não faço referência a esse “talão”, nem o inventario. Certamente não me terá sido mostrado na altura e como consequência, não procedi ao seu registo.
Na minha perspectiva e, uma vez que já passaram vários anos sobre estes acontecimentos, o que se passou foi:
1- o proprietário do Café Cantinho pode ter feito confusão com os machados e ter trocado a proveniência deles. Assim, terá prestado informações erradas a mim ou aos outros meus colegas.
Estou em crer que a informação correcta é aquela que eu veiculo na actualização do “Levantamento…”, uma vez que a primeira data de registo do machado é de 1987 e a publicação do livro “O Património…” é de 1992.
Estamos a falar de um período de tempo de 5 anos e o proprietário do café Cantinho esqueceu que o machado teria vindo do Pessegueiro e atribui a sua descoberta ao vasto conjunto de peças que encontrou no seu pátio, em Abrunhosa do Mato.
Pode parecer pouco importante esta questão, mas a verdade não é essa: a História constrói-se com base em dados, factos, acontecimentos e com materiais feitos pelo homem e que testemunham a sua passagem, a sua ocupação na superfície da terra.
Ora, um “vulgar” machado de pedra polida aparecer num sítio onde surgem muitos outros artefactos de pedra: martelos percutores - para trabalhar e fabricar outros artefactos de pedra - outros utensílios de pedra polida, outros em quartzo com formas bizarras fazendo lembrar cabeças humanas, tem, à falta de melhor utilidade, a condição de poder datar esse local. Isto é, o sítio de Abrunhosa do Mato, deu vários materiais, mas não há registo estratigráfico, não há qualquer elemento que permita localizar este sítio no “tempo”. Assim, este machado de pedra polida, mesmo que seja da época dos metais, permite fazer “viajar” aquele sítio pelo menos até ao Neolítico. Porém, este sítio pode muito bem ser mais antigo ou, eventualmente, mais recente. Os outros materiais que surgiram naquele sítio poderão, por analogia com elementos semelhantes aparecidos noutros locais da Península Ibéria, sugerir que aqui teria havido um local de culto ou funerário ou eventualmente um habitat, conforme referem os autores do livro “O Património…”
No entanto, se considerarmos que o machado é proveniente do Pessegueiro, e eu inclino-me para tal, a datação relativa e colocação no mapa do tempo do sítio de Abrunhosa do Mato já se torna mais difícil. Claro que temos ainda o “talão” de um machado de pedra polida (que eu não inventariei na actualização do “Levantamento…”, conforme já referi acima) e os elementos com paralelo com os aparecidos na região de Almeria, referidos por Almagro Gorbea, que não deixam dúvidas quanto à pré-historicidade do sítio.
Mas, postas as coisas desta forma, a História pode ser escrita de maneira diferente, como facilmente se vê.
O facto do referido machado ter aparecido no Pessegueiro fá-lo entrar em conexão directa com os construtores de megálitos daquela área: anta da Cunha Baixa, Orca dos Padrões, Orca dos Braçais. Claro que Abrunhosa do Mato é perto e, pese embora não haja vestígios de construções megalíticas naquelas paragens, o sítio onde surgiram os outros achados pode ter uma correlação estreita com os mesmos habitantes que terão construído ou ocupado os Dólmenes da região. No entanto, aparecer num sítio ou noutro coloca as coisas num patamar completamente diferente.
A questão que levanto a propósito deste machado é: a falta de rigor na transmissão das circunstâncias dos achados; a mais que certa confusão no relatar dos acontecimentos, condicionam e fazem seguir um caminho de interpretação histórica errado, nem que mais não seja em termos do estudo monográfico das várias localidades.